
Pelo Prof. Dr. Max Wundt, Jena.
Introdução.
Diversas interpretações.
Poucas obras da literatura mundial, pode-se dizer, ofuscaram a si mesmas na mesma medida que as Confissões de Agostinho. A imensa importância de seu conteúdo — que nos apresenta, com as próprias palavras do autor, o desenvolvimento de uma das maiores figuras religiosas da história — fez com que, naturalmente, a questão sobre o significado e a intenção do texto em si ficasse em segundo plano. A obra era utilizada principalmente apenas como fonte; a substância que oferecia capturava a atenção de tal forma que ninguém se preocupava em examinar mais atentamente o recipiente em que ela se apresentava, por mais nobre que fosse sua feitura ou rica a sua ornamentação.
Somente em tempos recentes ocorreu uma mudança nesse sentido. A valorização de diversas formas literárias beneficiou também esta obra magnífica, e tentativas têm sido feitas, a partir de diferentes perspectivas, para definir a natureza distintiva de sua forma.
A visão convencional considera o texto principalmente como um relato de Agostinho sobre sua própria vida — uma biografia. Essa perspectiva concentrava-se no conteúdo da obra, que era o que essencialmente atraía a atenção. Assim como o impulso de relatar a própria vida levou — sem dúvida sob a influência de Agostinho — outros homens notáveis a escrever “confissões” como narrativas de suas trajetórias, supunha-se que essa também fosse a força motriz por trás da obra de Agostinho.
No entanto, a própria época em que Agostinho compôs esse texto deveria ter suscitado dúvidas. O impulso de olhar para trás e contemplar a própria vida é compreensível quando ela se aproxima do fim ou após grandes e decisivas mudanças de rumo. Nenhum desses casos se aplica aqui. Segundo a datação padrão — baseada na lista cronológica de escritos presente nas Retratações (Retractationes) —, a obra foi iniciada por volta do ano 400, data que será confirmada mais adiante. Naquela época, aos quarenta e seis anos, Agostinho estava no auge de sua capacidade; inúmeras obras importantes iniciadas naqueles anos demonstram que ele de forma alguma se considerava no fim de sua jornada, visto que, de fato, uma vida inteira de atividade produtiva ainda o aguardava. Por outro lado, o texto também não apresenta qualquer conexão perceptível com nenhum dos momentos decisivos da vida de Agostinho. O ano 400 situa-se 13 anos após seu batismo, 9 anos após sua ordenação sacerdotal e 4 anos após sua consagração episcopal. Portanto, nenhum desses eventos poderia ter fornecido o impulso imediato para tal relato de sua vida até aquele momento; e não temos conhecimento de nenhum evento de igual relevância ocorrido por volta do ano 400. Assim, não fica claro por que Agostinho teria decidido, de repente, descrever sua vida naquela ocasião.
Assine para continuar lendo
Torne-se um assinante pagante para ter acesso ao restante do post e outros conteúdos exclusivos.