
Por MURRAY J. HARRIS
A. RESSURREIÇÃO E O ESPÍRITO SANTO
O ensino do Novo Testamento sobre a relação do Espírito com a ressurreição está praticamente restrito às epístolas de Paulo e, mesmo ali, é somente em 2 Coríntios e depois que a relação se torna de especial interesse. Um estudo das passagens relevantes nos permite identificar quatro funções do Espírito com relação à ressurreição dos crentes.
1. O Espírito é a garantia de uma futura transformação por ressurreição. Em três passagens paulinas (2 Coríntios 1.22; 5.5; Efésios 1.14), o Espírito é chamado de arrhabon que Deus deu aos crentes. Este termo técnico tinha dois significados básicos no uso comercial grego. Era uma primeira parcela de uma compra, um pagamento inicial ou depósito, que exigia pagamentos adicionais, mas dava direito legal aos bens em questão. Às vezes, esse pagamento parcial era uma parte considerável do total, mas em outras ocasiões era meramente um depósito simbólico. Em seu outro sentido, arrhabon denotava um penhor ou garantia que diferia em essência do pagamento real, mas o tornava obrigatório. Muitos comentaristas preferem o primeiro significado, apontando para um pensamento paralelo em Romanos 8.23, onde Paulo fala das ‘primícias (aparche) do Espírito’. Mas como essa frase pode simplesmente se referir às ‘primícias trazidas pelo Espírito’ (isto é, o espírito de filiação a ser consumado na filiação adotiva, Rm 8.14-16, 23),[1] não precisamos insistir no significado de ‘pagamento inicial’ para arrhabon. Significativamente, no grego moderno, uma palavra para ‘anel de noivado’ é arrhabona, uma promessa de amor e fidelidade para toda a vida. Embora algumas traduções modernas prefiram manter ambos os sentidos (por exemplo, Moffatt, ‘penhor e prestação’; NIV, ‘um depósito, garantindo o que está por vir’), podemos seguir as versões que traduzem o termo como ‘penhor’ ou ‘garantia’ (TCNT, RSV, NASB, NEB, Weymouth, Goodspeed). Claramente, nem todas as nuances comerciais da palavra podem ser enfatizadas, pois a salvação não é um processo de negociação recíproca ratificada por um acordo contratual vinculativo, mas sim o resultado da graça de Deus, que concede o seu Espírito aos crentes como um dom não solicitado. Podemos também ter certeza de que Paulo não considerava o Espírito como um penhor retornável (cf. Gênesis 38.17-20) ou como uma mera amostra antecipada e, portanto, uma parte inferior da herança cristã.
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