
Por Lion Vaganay
Atualmente, estima-se que o número de edições do Novo Testamento Grego seja superior a mil. Mas não é tão difícil quanto se poderia pensar traçar sua história, pois há obras importantes ao longo do caminho cujas datas servem como marcos. Há quatro períodos principais. Em primeiro lugar, há o período da formação fortuita do que mais tarde foi chamado de ‘textus receptus’ e de sua entronização, que foi tão rápida quanto imprudente. Em seguida, veio o reinado do ‘textus receptus’, que foi longo, embora não particularmente esplêndido, e durante o qual os verdadeiros precursores da crítica textual intensificaram seus ataques contra ele, sem, no entanto, ousar se libertar de seu controle. Sua queda ocorreu no terceiro período, com o triunfo de métodos que eram científicos, ainda que ainda contaminados pelo individualismo. O período final viu a criação de alguns projetos importantes, que foram grandemente auxiliados pela organização da pesquisa em equipes e, ao mesmo tempo, pela chegada da tecnologia da computação. A realização de uma grande edição crítica ainda é, contudo, uma esperança que pertence ao futuro.
A ASCENSÃO DO ‘TEXTUS RECEPTUS’ (1514-1633)
Não havia um Novo Testamento em grego entre os incunábulos, e mesmo sessenta anos após a invenção da imprensa, apenas alguns fragmentos dele haviam sido editados: o Magnificat e o Benedictus, o Prólogo do Evangelho de João e seus primeiros capítulos (1:1-6:58), a Oração do Senhor e a Anunciação do Anjo. No Ocidente, as pessoas não estavam muito familiarizadas com o grego. O que interessava aos estudiosos eram as obras da literatura secular que haviam sido disponibilizadas recentemente. Quanto à Bíblia, eles já a tinham em latim.
A BÍBLIA POLIGLOTA COMPLUTENSE (1514)
A honra de ter empreendido a ‘editio princeps’ do Novo Testamento em grego cabe a Francisco Ximenes de Cisneros (1437-1517), Cardeal Arcebispo de Toledo. Isso constitui o quinto dos seis volumes em fólio de uma Bíblia poliglota conhecida como ‘Complutensis’, por ter sido preparada e impressa em Alcalá (Complutum em latim). Ximenes concebeu a ideia para sua obra em 1502 e foi auxiliado por muitos homens de letras e teólogos, entre eles López de Stunica. A impressão do Novo Testamento foi concluída em 10 de janeiro de 1514 e a dos outros volumes em 1517. Mas sua publicação não foi autorizada pelo Papa Leão X até 22 de março de 1520, quando os manuscritos que haviam sido emprestados pelo Vaticano foram devolvidos.
O texto do Novo Testamento é apresentado de uma maneira bastante peculiar. Há duas colunas em cada página: a da esquerda é mais larga e contém o texto grego, enquanto a da direita contém o texto da Vulgata. Um sistema de siglas permite manter uma correspondência muito próxima entre as linhas e até mesmo as palavras dos dois textos. Das notas marginais, apenas algumas raras são de interesse para a crítica textual. O todo foi impresso com muito cuidado.
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